No último ano de seu mandato, decorridos já três anos de sua posse, o governador Camilo Santana resolve finalmente reconhecer a realidade do grave problema da nossa Segurança Pública, em pontos que lhe foram incansavelmente mostrados por nós que fazemos parte da Associação dos Profissionais da Segurança (APS).

– Comentaremos, aqui, alguns trechos de sua entrevista fornecida ao Jornal O Povo, publicada no dia 21 de janeiro:

1 – “O problema da segurança pública no Estado não será resolvido apenas com repressão e mais polícia”.

Quanto tempo é necessário para chegar a uma conclusão tão óbvia? Mas, que medidas foram tomadas até aqui para, por exemplo, provocar o Poder Judiciário, quanto à sua grande parcela de culpa, na libertação de criminosos perigosos, capturados pela Polícia Militar e Polícia Civil? Quantas vezes falamos da forma como as audiências de custódia têm sido um desserviço à Segurança Pública e à população cearense?

2 – “Os grandes traficantes do Ceará estão presos, mas conseguem comandar o tráfico de dentro dos presídios”.

Não foi falta de aviso. Não foi falta de informação. Faltou mesmo foi atitude para acabar com esse absurdo. O motivo do encarceramento de um criminoso é justamente por fim à sua atividade criminosa, cerceando sua liberdade e garantindo assim mais segurança à população.

Se é assim, o sistema carcerário cearense perdeu completamente sua razão de existir. Se o chefe do executivo, admite que os criminosos continuam a comandar o crime, mesmo estes estando presos, sob a completa responsabilidade do Estado, isso se torna então uma confissão de fracasso.
Soltos são um perigo, presos da mesma forma. O que fazer então? Quem pode resolver essa situação, quando a polícia já cumpriu seu papel e nesse caso até o judiciário, já que o criminoso já se encontra preso? O sistema prisional não é competência do Estado?

3 – “É preciso promover a integração de entes como Poder Judiciário, Polícia Federal, instituições de classe como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o meio acadêmico”.

Essa resposta estava dada. O plano de segurança, entregue pelo deputado estadual Capitão Wagner, logo que assumiu seu mandato, contém uma série de projetos integrados, com as mais diversas áreas. Essa é uma questão posta por todos os especialistas em segurança do mundo e que estão presentes nos projetos exitosos, no Brasil e fora do Brasil. E quando dizemos no Brasil, é para lembrar que justificar que o problema da criminalidade como fenômeno nacional, cai por terra, quando vemos outros estados que estão avançando nesse enfrentamento com políticas integradas.

4 – “Só num bairro foram quatro (homicídios), por tráfico de drogas, gangues. Não vamos resolver o problema da violência só com mais polícia. Precisamos criar condições para que esses jovens não caiam no mundo das drogas, não sejam aliciados por traficantes”.

Número de assassinatos no Ceará

Aqui é apenas uma extensão do ponto anterior. Faz muito tempo, os mapas da violência mostram a predominância desse público dentre as vítimas dessa guerra urbana.

A falta de políticas públicas eficientes para juventude é fator determinante para o aliciamento dos nossos jovens pelas facções criminosas, aliado ao sentimento de impunidade cada vez mais perceptível.

5 – Mantendo o discurso de “puxar para si” o problema da Segurança Pública, Camilo disse que irá ao menos uma vez por mês às reuniões das Áreas Integradas de Segurança (AIS) do Ceará.

Tomar para si a questão da segurança e participar das reuniões da pasta: esse discurso foi feito pela primeira vez no início da gestão e o governador de fato participou diretamente dessa discussão, estando em reuniões e mais reuniões na Secretaria de Segurança, com delegados e comandantes de todas as áreas. Qual o resultado concreto disso?

Por mais boa vontade do governador, priorizar a Segurança Pública é muito mais que desempenhar uma função que inclusive nem é sua. Se o projeto de segurança do Ceará de fato estivesse bem elaborado, desde o primeiro ano de sua gestão, certamente o governador do Estado não estaria “tomando para si” agora, o que ele designou um técnico para realizar, no caso, o secretário de segurança. Por acaso o governador está colocando em dúvida a capacidade de seu assessor direto da pasta?

Fica a dúvida se essas declarações são de fato uma tomada de decisão do chefe do executivo cearense ou mais um lançamento de plataforma de governo em ano eleitoral. Se for a segunda opção, temos que lembrar que o grande problema é o fato de o pré-candidato ainda está de posse do mandato e na sua reta final, onde segue num simples “marcar passo”.

Para não dizer que não temos uma avaliação positiva do pronunciamento do governador, podemos dizer que admitir as dificuldades e erros na sua gestão, no que concerne à segurança, já é um grande passo. Vale lembrar que o seu primeiro secretário na pasta negou, reiteradas vezes, que existia crime organizado no Ceará. E mesmo o atual secretário, no início de seu trabalho, afirmou publicamente que o crime no Ceará não era organizado, mas essa semana já fez um pronunciamento diferente.

E entre o dito e o contra dito dos nossos gestores, não podemos deixar de enfatizar que nos últimos tempos, nosso governador disparou um discurso que repetiu em inúmeros eventos públicos, de que o problema da segurança pública era culpa do Governo Federal, por conta do narcotráfico. Todavia, quando o Conselho Estadual de Segurança do Ceará ventila a necessidade de uma intervenção federal em nosso Estado, o governador se coloca completamente contra. Se é um problema do Governo Federal, palavras dele, então por quê rejeita o apoio?

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